Rosto Molhado
Valdir Coimbra
Naquela manhã, assim como no dia
anterior, caia uma fina e serena chuva. No céu, as nuvens começavam a dar lugar
aos primeiros raios de sol que insistiam em aparecer para secar as poças de
água que se formavam pelas ruas da cidade.
Abriu a janela. Observou o movimento
das pessoas que iam e vinham com seus guarda-chuvas formando um lindo mosaico
colorido na calçada. Tomou o resto de café que tinha na xícara. Colocou alguns
papéis na mochila. Pegou um casaco e colocou sobre uma cadeira.
Abriu uma carteira de cigarros,
acendeu um cigarro e se dirigiu para a janela a fim de olhar mais uma vez para
os transeuntes. Mas dessa vez seu olhar foi desviado para uma janela do outro
lado da rua.
A outra janela estava fechada. Os
pingos da chuva escorriam pelo vidro. Colado à janela, um rosto molhado também
observava o movimento da rua. Não era possível saber se era o rosto de uma
mulher ou de um homem. Sentiu uma sensação estranha e por alguns minutos foi
como se tivesse perdido o movimento das pernas.
A inércia tomou conta de seu corpo.
Não conseguia se mover. Nem sequer piscava os olhos. O tempo correu lento. E do
outro lado da rua, uma linha vermelha riscava, não sabia se o vidro ou o rosto.
Era como se escorresse sangue pelo rosto. Nada desfazia aquele magnetismo que
unia os dois rostos.
De repente o som de uma batida. Buzinas
começaram a ser ouvidas. Moveu-se e pode sentir que o cigarro começará queimar
seus dedos. Olhou para o relógio. Havia perdido a hora. Voltou a olhar para a
janela. O rosto já não estava mais lá. Pegou a mochila e o casaco. Desceu
correndo para rua.
Na rua as pessoas começavam a se
aglomerar em volta do carro que batera no poste. Olhou mais uma vez para a janela, não havia
ninguém lá. Pensou que talvez também estivesse descido e estaria ali no meio da
multidão. Consegui vencer o circulo de pessoas e chegou mais próximo do carro.
Uma estranha sensação tomou conta do
seu corpo. Sua boca ficou seca. Era impossível acreditar no que seus olhos
estavam vendo.
Dentro do carro, com um pequeno
corte que deixava escorrer um pouco de sangue, jazia com o rosto que há pouco
tempo estava na janela.
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