domingo, 22 de abril de 2012


Rosto Molhado
Valdir Coimbra

            Naquela manhã, assim como no dia anterior, caia uma fina e serena chuva. No céu, as nuvens começavam a dar lugar aos primeiros raios de sol que insistiam em aparecer para secar as poças de água que se formavam pelas ruas da cidade.
          Abriu a janela. Observou o movimento das pessoas que iam e vinham com seus guarda-chuvas formando um lindo mosaico colorido na calçada. Tomou o resto de café que tinha na xícara. Colocou alguns papéis na mochila. Pegou um casaco e colocou sobre uma cadeira.
            Abriu uma carteira de cigarros, acendeu um cigarro e se dirigiu para a janela a fim de olhar mais uma vez para os transeuntes. Mas dessa vez seu olhar foi desviado para uma janela do outro lado da rua.
            A outra janela estava fechada. Os pingos da chuva escorriam pelo vidro. Colado à janela, um rosto molhado também observava o movimento da rua. Não era possível saber se era o rosto de uma mulher ou de um homem. Sentiu uma sensação estranha e por alguns minutos foi como se tivesse perdido o movimento das pernas.
            A inércia tomou conta de seu corpo. Não conseguia se mover. Nem sequer piscava os olhos. O tempo correu lento. E do outro lado da rua, uma linha vermelha riscava, não sabia se o vidro ou o rosto. Era como se escorresse sangue pelo rosto. Nada desfazia aquele magnetismo que unia os dois rostos.
            De repente o som de uma batida. Buzinas começaram a ser ouvidas. Moveu-se e pode sentir que o cigarro começará queimar seus dedos. Olhou para o relógio. Havia perdido a hora. Voltou a olhar para a janela. O rosto já não estava mais lá. Pegou a mochila e o casaco. Desceu correndo para rua.
            Na rua as pessoas começavam a se aglomerar em volta do carro que batera no poste.  Olhou mais uma vez para a janela, não havia ninguém lá. Pensou que talvez também estivesse descido e estaria ali no meio da multidão. Consegui vencer o circulo de pessoas e chegou mais próximo do carro.
            Uma estranha sensação tomou conta do seu corpo. Sua boca ficou seca. Era impossível acreditar no que seus olhos estavam vendo.
            Dentro do carro, com um pequeno corte que deixava escorrer um pouco de sangue, jazia com o rosto que há pouco tempo estava na janela.

Nenhum comentário:

Postar um comentário