Tocaia
Valdir
Coimbra
O sol começava a se esconder por
entre os morros, enquanto os dois homens terminavam de preparar o local onde
iriam permanecer do final da tarde até o inicio da noite. Era uma árvore
grande, como diziam as pessoas da roça; era um jatobá erado. Os dois amigos
escolheram um galho bem grosso para ficarem sentados.
- Quem sobe primeiro? – indagou um
dos homens.
- Tu pode subir primeiro Joca. Depois
que eu te der as armas eu subo.
- Tá bom! – exclamou o homem que
começava a escalar a grande árvore pelos galhos.
Depois de alguns minutos os dois já
estavam sentados no galho que escolheram; cada um com uma espingarda carregada
e com alguns cartuchos nos bolsos.
- Temos que ser certeiros dessa vez
Joca. O patrão disse que não que não é pra nóis deixar rastros.
- É Zé. Temos que matar o bicho de
uma só vez.
- É! Dessa vez ele vai sentir o
gosto da lama desse brejo.
- Tu já sabe de que lado vai atirar
Zé?
- Já. Já faz dia que tô escolhendo o
rumo que vou atirar nele. Primeiro vou atirar nos quartos dele. Depois que ele
não conseguir andar mais eu encho as costas dele de chumbo.
- Eita que tu ta cum vontade de
matar o bicho, home!
- Tô mesmo Joca. Tô mesmo.
- É! Quero ver se depois de morto
ele vai rôba arroz na roça dos outros.
- Sabe Joca? As vez eu acho que o
patrão podia dexar ele comer a vontade lá na roça. O patrão tem tanto; não
custa nada dá um pouco.
- É assim mesmo Zé. Quanto mais tem,
mais quer!
- Agora você disse uma verdade Joca!
Mal parou de falar, Zé ouviu pisadas
no caminho.
- Olha Joca! Tá vindo alguém. Tu tá
ouvindo?
- Tô sim! Será que é ele Zé?
Os dois silenciaram a conversa que
já era baixa e ficaram de olho na vareda por onde passavam tanto as pessoas como
os bichos.
Não demorou muito para que o dono
das pisadas ficasse visível aos olhos dos dois. E para a decepção de ambos era
uma quebradeira de coco que voltava para casa.
Os dois ficaram imóveis por entre os
galhos do jatobá. Na vareda, a mulher caminhava apressadamente para chegar em
casa antes que a noite escurecesse o resto do dia. E nem percebeu que os dois
homens observavam os que passavam na estrada.
Mal ela sumiu no meio do mato
fechado, os amigos ouviram o trotar de um animal que se aproximava. Zé e Joca
agasalharam as espingardas em mira e aguardaram o momento em que a vítima
ficaria na mira de um dos dois.
Os passos eram devagar, percebia-se
se longe que o animal carregava peso.
Sentados no galho da árvore, os amigos
não conversavam; era possível ouvir o pulsar do coração dos dois. Apenas se entreolhavam
e esperavam o momento de atirar.
Os passos ficaram mais próximos. Os
dois homens ouviram o contato dos pés do animal com a água.
Primeiro viram um burro com uma
grande carga nas costas. Eram os sacos de arroz. Os homens seguram os gatilhos
das espingardas com mais força. O burro passou. E ouviu-se um grande estrondo.
Os dois atiraram ao mesmo tempo.
Um homem caiu de joelhos dentro do
pequeno curso de água que cruzava a estrada.
Mais dois tiros. Um seguido do
outro.
O homem caiu de bruços com o rosto
na lama.
No galho da árvore, os dois amigos
se olharam e um sorriso amarelo e triste saiu dos lábios de um deles.