quinta-feira, 10 de maio de 2012


Tocaia

Valdir Coimbra

            O sol começava a se esconder por entre os morros, enquanto os dois homens terminavam de preparar o local onde iriam permanecer do final da tarde até o inicio da noite. Era uma árvore grande, como diziam as pessoas da roça; era um jatobá erado. Os dois amigos escolheram um galho bem grosso para ficarem sentados.
            - Quem sobe primeiro? – indagou um dos homens.
            - Tu pode subir primeiro Joca. Depois que eu te der as armas eu subo.
            - Tá bom! – exclamou o homem que começava a escalar a grande árvore pelos galhos.
            Depois de alguns minutos os dois já estavam sentados no galho que escolheram; cada um com uma espingarda carregada e com alguns cartuchos nos bolsos.
            - Temos que ser certeiros dessa vez Joca. O patrão disse que não que não é pra nóis deixar rastros.
            - É Zé. Temos que matar o bicho de uma só vez.
            - É! Dessa vez ele vai sentir o gosto da lama desse brejo.
            - Tu já sabe de que lado vai atirar Zé?
            - Já. Já faz dia que tô escolhendo o rumo que vou atirar nele. Primeiro vou atirar nos quartos dele. Depois que ele não conseguir andar mais eu encho as costas dele de chumbo.
            - Eita que tu ta cum vontade de matar o bicho, home!
            - Tô mesmo Joca. Tô mesmo.
            - É! Quero ver se depois de morto ele vai rôba arroz na roça dos outros.
            - Sabe Joca? As vez eu acho que o patrão podia dexar ele comer a vontade lá na roça. O patrão tem tanto; não custa nada dá um pouco.
            - É assim mesmo Zé. Quanto mais tem, mais quer!
            - Agora você disse uma verdade Joca!
            Mal parou de falar, Zé ouviu pisadas no caminho.
            - Olha Joca! Tá vindo alguém. Tu tá ouvindo?
            - Tô sim! Será que é ele Zé?
            Os dois silenciaram a conversa que já era baixa e ficaram de olho na vareda por onde passavam tanto as pessoas como os bichos.
            Não demorou muito para que o dono das pisadas ficasse visível aos olhos dos dois. E para a decepção de ambos era uma quebradeira de coco que voltava para casa.
            Os dois ficaram imóveis por entre os galhos do jatobá. Na vareda, a mulher caminhava apressadamente para chegar em casa antes que a noite escurecesse o resto do dia. E nem percebeu que os dois homens observavam os que passavam na estrada.
            Mal ela sumiu no meio do mato fechado, os amigos ouviram o trotar de um animal que se aproximava. Zé e Joca agasalharam as espingardas em mira e aguardaram o momento em que a vítima ficaria na mira de um dos dois.
            Os passos eram devagar, percebia-se se longe que o animal carregava peso.
      Sentados no galho da árvore, os amigos não conversavam; era possível ouvir o pulsar do coração dos dois. Apenas se entreolhavam e esperavam o momento de atirar.
            Os passos ficaram mais próximos. Os dois homens ouviram o contato dos pés do animal com a água.
            Primeiro viram um burro com uma grande carga nas costas. Eram os sacos de arroz. Os homens seguram os gatilhos das espingardas com mais força. O burro passou. E ouviu-se um grande estrondo. Os dois atiraram ao mesmo tempo.
            Um homem caiu de joelhos dentro do pequeno curso de água que cruzava a estrada.
            Mais dois tiros. Um seguido do outro.
            O homem caiu de bruços com o rosto na lama.
            No galho da árvore, os dois amigos se olharam e um sorriso amarelo e triste saiu dos lábios de um deles.      

domingo, 22 de abril de 2012


Rosto Molhado
Valdir Coimbra

            Naquela manhã, assim como no dia anterior, caia uma fina e serena chuva. No céu, as nuvens começavam a dar lugar aos primeiros raios de sol que insistiam em aparecer para secar as poças de água que se formavam pelas ruas da cidade.
          Abriu a janela. Observou o movimento das pessoas que iam e vinham com seus guarda-chuvas formando um lindo mosaico colorido na calçada. Tomou o resto de café que tinha na xícara. Colocou alguns papéis na mochila. Pegou um casaco e colocou sobre uma cadeira.
            Abriu uma carteira de cigarros, acendeu um cigarro e se dirigiu para a janela a fim de olhar mais uma vez para os transeuntes. Mas dessa vez seu olhar foi desviado para uma janela do outro lado da rua.
            A outra janela estava fechada. Os pingos da chuva escorriam pelo vidro. Colado à janela, um rosto molhado também observava o movimento da rua. Não era possível saber se era o rosto de uma mulher ou de um homem. Sentiu uma sensação estranha e por alguns minutos foi como se tivesse perdido o movimento das pernas.
            A inércia tomou conta de seu corpo. Não conseguia se mover. Nem sequer piscava os olhos. O tempo correu lento. E do outro lado da rua, uma linha vermelha riscava, não sabia se o vidro ou o rosto. Era como se escorresse sangue pelo rosto. Nada desfazia aquele magnetismo que unia os dois rostos.
            De repente o som de uma batida. Buzinas começaram a ser ouvidas. Moveu-se e pode sentir que o cigarro começará queimar seus dedos. Olhou para o relógio. Havia perdido a hora. Voltou a olhar para a janela. O rosto já não estava mais lá. Pegou a mochila e o casaco. Desceu correndo para rua.
            Na rua as pessoas começavam a se aglomerar em volta do carro que batera no poste.  Olhou mais uma vez para a janela, não havia ninguém lá. Pensou que talvez também estivesse descido e estaria ali no meio da multidão. Consegui vencer o circulo de pessoas e chegou mais próximo do carro.
            Uma estranha sensação tomou conta do seu corpo. Sua boca ficou seca. Era impossível acreditar no que seus olhos estavam vendo.
            Dentro do carro, com um pequeno corte que deixava escorrer um pouco de sangue, jazia com o rosto que há pouco tempo estava na janela.

sábado, 24 de março de 2012

De repente


Já fazia algum tempo que os primeiros raios de sol penetravam o quarto por meio da janela entreaberta, e a brisa fresca da manhã balançava as cortinas em um suave bailar. Thereza permanecia debruçada sobre a escrivaninha junto a vários papéis amassados. Próximos à escrivaninha, restos de um vaso se misturavam a algumas rosas vermelhas amassadas, das quais escorria um liquido vermelho. A jovem parecia dormir profundamente, até que foi despertada pelo som da campainha, que tocava repetidamente.
Thereza ergueu a cabeça tentando recuperar os sentidos e localizar a direção de onde vinha o som.Sem perceber que estava descalça saiu em direção à porta e sentiu algo ao perceber que havia pisado sobre um dos muitos cacos de vidro nos quais o vaso havia se transformado.
Ao abrir a porta, Thereza viu uma mulher se afastar em direção à casa da vizinha, ela ainda tentou um grito, mas não foi o suficiente para ser ouvida. A jovem entrou na casa ao lado e a porta foi fechada. Thereza observou a rua, que àquela hora da manhã ainda estava calma, fechou a porta atrás de si e foi tocar a campainha da casa ao lado, na qual a mulher que batera à sua porta tinha entrado.
Durante o pequeno trajeto, a moça cruzou com algumas crianças da vizinhança que voltavam da escola um pouco mais cedo.
De nada adiantou ir à casa ao lado, pois mesmo depois de muito insistir em tocar a campainha, Thereza parecia não ser ouvida; nem mesmo com os gritos que ela pronunciava o nome da vizinha.
Na volta para casa, ela encontrou com o vendedor de flores que costumava passar pela rua. Thereza cumprimentou o moço, mas ele não retribuiu o cumprimento e mesmo assim ela parou para comprar algumas rosas para substituir as que haviam sido estragadas junto com ovaso.
O vendedor parecia não ouvi-la. Por mais de três vezes Thereza perguntou o preço da dúzia de rosas vermelhas; e nem assim conseguiu obter uma resposta.
Vendo que o vendedor não estava disposto a negociar com ela, Thereza decidiu entrar em casa. Depois que fechou a porta, ela parou e pensou que a vizinhança deveria estar magoada com ela; sabia que não era uma boa vizinha, mas achava que também não era tão renegada por seus vizinhos, sempre os cumprimentou e eles sempre responderam ao seu cumprimento. Mas hoje eram diferente, eles estavam ignorando sua presença ou ela estava invisível.
Esqueceu os vizinhos por um momento e concentrou o pensamento no esposo, não se lembrava da ultima vez que tinham se visto; na sua memória, era como se eles não estivessem se visto há mais de um mês.
Voltou ao quarto, abriu o armário para ver se as roupas do marido ainda estavam guardadas junto às suas; estava tudo lá. Olhou pela janela para verificar se o carro estava estacionado em frente à casa, pois mesmo tendo passado por lá há poucos minutos ela não lembrava desse detalhe. Foi ao banheiro para ver se encontrava alguma coisa que explicasse o que havia ocorrido na noite passada ou no dia anterior.
De volta ao quarto, Thereza recolheu os restos de rosas amassadas e levou para a cozinha onde procurou uma vassoura para varrer os cacos do vaso quebrado. Encontrou uma garrafa de vodka vazia em cima da mesa, achou estanho, pois o marido não bebia e ela havia parado há algum tempo. Voltou ao quarto e tentou se livrar da sujeira. Lá fora a campainha tocou novamente, ela largou a vassoura e saiu para atender a porta. Quando abriu a porta viu o carteiro conversando com o vendedor de rosas e pôde ouvir o vendedor afirmar ao outro que não tinha gente naquela casa, ela achou estranho, mas não estava disposta a ir conversar com que não queria lhe dar um simples bom dia.
Fechou a porta e deitou por alguns instantes no sofá, de onde pode ver alguns pedaços de papel no chão, levantou e depois que os pegou, tentou uni-los para ler o que estava escrito; era a letra do marido e o texto era um bilhete formado por poucas palavras:

Thereza!
 Não consigo mais forçar essa nossa união. Tento de todas as maneiras te suportar, mas você se transformou em uma mulher amarga e insensível. Você não consegue enxergar o outro, tudo tem que ser para e por você.
Não vivemos mais uma união, estamos à beira de uma tragédia, e tudo por sua causa. Saiba que não foi só você que perdeu um filho, mas assim como eu você tem que superar. Sinto que tenho que te deixar.
Eu tentei, mas isso não depende só de mim. É preciso que você faça sua parte.
                                               Assinado
                                                           Thiago.

Thereza deitou no sofá com os olhos cheios de lágrimas, lembrar-se da morte do filho era demais para ela. Durante os últimos cinco anos ela conviveu com uma culpa que não era dela, mas ela mesma insistia em condenar-se pela morte do filho, e o que mais a machucava era a indiferença e a falta de amor que o marido tinha pelo filho.
Thereza levou a mão em direção a um porta-retratos e pegou uma foto do pequeno Filipe. Seus olhos começaram a lacrimejar e as lagrimas começaram a correr como rios que não sabem para onde vão.
As lágrimas começaram a cair sobre o porta-retratos e, à medida que iam caindo Thereza, como que em um estado de êxtase, mergulhava em um sono que lhe levava de volta ao passado, a um passado que ela queria voltar a viver e que ao mesmo tempo tinha medo de encara-lo.
Ao abrir os olhos, ela viu-se diante do leito do filho, via Felipe dormir calmo enquanto passava por mais uma sessão de quimioterapia. O seu lindo e pequeno bebê já não tinha mais a beleza de meses atrás, a doença já tinha lhe tirado toda a graciosidade de um bebê de dois anos.
Enquanto o filho dormia, Thereza começou a passar a mão por seus cabelos, e de repente percebeu que Felipe não estava respirando. Ela começou a chorar, deitou o rosto por cima do rosto da criança e, assim como na fotografia, suas lágrimas começaram a molhar o pequeno rosto, já sem vida, de Felipe.
E em meio a lágrimas Thereza despertou de mais um pesadelo.
Sentou no sofá. Sentiu que precisava da companhia de alguém; mas quem poderia vir lhe fazer companhia. Aquela falta de lembranças do dia anterior estava deixando-a meio confusa. Pegou o telefone e ligou para o último número discado no intuito de recuperar alguma lembrança da noite passada.
O telefone chamou. Do outro lado da linha ela ouviu a voz da sogra, com quem tentou iniciar um diálogo, mas a sogra parecia não ouvi-la e a mulher desligou o telefone dizendo que era alguém passando trote.
De volta ao quarto, Thereza entrou no chuveiro; buscou no banho uma maneira de se livrar um pouco de tudo que lhe angustiava. Ao primeiro contato da água com sua pele, sentiu um vento frio soprar sobre o seu corpo e uma onda de pensamentos apoderou-se de sua mente, era como se um filme da noite passada passasse diante de seus olhos em apenas alguns segundos. Ela caiu sentada no chão do banheiro, e seus lábios como que forçados por uma entidade superior, apenas pronunciaram duas palavras:
- Isso não!

Valdir Coimbra



sábado, 17 de março de 2012

PARTIDA

Valdir Coimbra

            Sentado sobre uma das muitas malas que os pais haviam colocado à beira da estrada, o garoto tentava engolir o nó que surgira na garganta enquanto olhava para a pitombeira onde tantas vezes ele brincara com os primos e os outros garotos do povoado. A distração era tão grande que o garoto demorou a ouvir a voz de sua mãe que já lhe chamava há algum tempo.
 – Sinhora mãe! – As duas palavras saíram apertadas entre o nó que enchia toda a garganta do menino, e que ele a todo custo evitava converte-lo em lágrimas.
– Meu filho! Você não vai toma a benção dos seus avós não?
– Já vou mãe!
– Rápido que o ônibus já esta chegando.
O garoto levantou meio sem vontade e caminhou em direção à casa do tio, onde os familiares se despediam dos que iam viajar.
Não precisou entrar na casa, pois seus avós estavam sentados no terreiro.
– Bença vó! Bença vô!
As palavras quase não foram ouvidas pelos avós do garoto, que agora tinha mais dificuldade para engoli aquele nó que a cada instante aumentava ainda mais. Era um nó angustiante e que não adiantava tentar cuspi-lo fora como fizera tantas vezes com caroços de pitomba que teimavam e descer garganta abaixo, e que redobrou de tamanho quando foi pego de surpresa pela avó que o puxou pela mão e o apertou contra o peito.
Tentou desvencilhar-se mais de uma vez, mas não conseguiu. A avó, mesmo com os braços cheios de rugas ainda tinha forças o bastante para segurar o garoto, que àquela altura estava com boa parte do cabelo molhado de lágrimas da avó. Lágrimas que ele tentava não derrama-las.
O abraço durou apenas um instante, que para ele converteu se em horas. Horas que fizeram com que ele revivesse todos os momentos de felicidade que passara com a avó tão querida.
Quando se viu livre dos braços da vó, o garoto correu em direção às malas onde os irmãos e os pais esperavam o ônibus surgia na curva da estrada.
Os parentes começaram a abraçar-se e dizerem adeus em meio a lágrimas e soluços, por parte das mulheres. Mas ele não chorava. Não por que não sentia vontade, nem por que alguém algum dia lhe dissera que homem não chorava. Mas sim por que ele nunca tinha visto o pai chorando, nem mesmo quando perdera o pai; e assim, concluiu que os homens de sua família não deveriam chorar.
O motorista do ônibus buzinou avisando que já iria partir. O garoto deu mais um abraço na vó, agora de espontânea vontade. Tentou, em vão, engoli mais uma vez o nó que não descia para o estomago nem sai pela boca, isso por que não era um nó feito de coisa concreta, mas sim de coisa sentida, era feito da saudade que sentiria de todos, da dor de ter que deixar uma parte dos que amava. Portanto, era um nó que só poderia ser jogado fora por meio de lágrimas, e ela estava decidido a não chorar.
Largou a vó e entrou no ônibus em disparada enquanto os outros terminavam de arrumar as malas no bagageiro.
Sentou-se próximo da janela e colocou a mão aberta encostada no vidro como sinal de adeus. Sentiu os olhos molhados, mas conseguiu resistir.
O ônibus começou a andar e as pessoas foram ficando para trás com as mãos erguidas em sinal de adeus, ou quem sabe, até logo.
O garoto estava triste pela partida, mas estava feliz por ter conseguido manter os olhos enxutos enquanto quase todos choravam na despedida. Sentia que talvez nunca mais viesse a ver seus parentes que ficaram, mas isso não era o suficiente para fazê-lo chorar, embora o nó ainda estivesse na garganta.
O ônibus cruzou a ponte sobre o pequeno rio e, quando ele olhou para a água onde ele tanto havia brincado não resistiu. Aproximou o rosto do vidro da janela e deixou as lágrimas rolarem. Era como se ambos chorassem, ele e o rio. Abriu a boca e silenciosamente disse adeus.